Caminho de olhos fechados na escuridão. O caminho me é estranho, meus pés não sabem para qual lado devem ir.
Ouço barulho de água, atrevo-me a abrir os olhos e atravesso uma ponte, com muita cautela. Morrer afogada não é o que quero.
Aos poucos, tudo se ilumina. A luz contrasta com a forma cadavérica que vem ao meu encontro. Consigo distinguir sua silhueta, mas... Ela não vem só!
Atrevida! Trouxe uma criança.
Trouxe a minha criança! A que eu matei há anos, e enterrei no fundo do meu ser. A que eu não queria ver nunca mais.
Nossos olhares se cruzam. Meus olhares se cruzam. Somos a mesma mulher deteriorada.
A criança, minha criança, brinca com uma boneca careca e não compreende nosso encontro. Não esperava me ver. Sua roupa está suja da terra que meu ser abriga.
Não! Ela não está suja! Ela é única pura entre três mortas-vivas.
A sujeira está em mim. Em mim e na forma cadavérica que sorri pra mim, perguntando se fui bem conduzida durante a minha vida.
Cínica! Cínica! Cínica!
Fui sua marionete desde o momento que nasci. Marionete dos meus amores, dos meus desejos, das minhas ideologias, das outras pessoas... Da minha mente.
Ela começa a ganhar novas formas indefinidas. São as misturas dos meus pensamentos.
A criança puxa a barra da minha saia, me chama pra brincar e eu vou.
Minha manipuladora desata minhas cordas.
Estou livre... Para sempre.
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