terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sacolas plásticas

Sentada no degrau, de uma cafeteria- marcada pela dominação americana sobre o mundo- lia Nietzsche.
Senti alguém tentando se aproximar e parando, temendo minha reação.
“Você gosta de ler, moça?”
Foi com uma pergunta assim, que o destino me abordou. Ele se transfigurará em um menino, negro, de roupa com cores chocantes e duas sacolas plásticas na mão. Em uma trazia cobertas, em outra a salvação...
“Gosto sim. Por quê?”
Aproximando-se, abriu uma das sacolas, tirou inúmeros livros e me disse pra pegar qual quisesse. Ganhara-os de uma mulher, dizia que eram livros velhos, que ele não leria.
“Você faz psicologia? É psicóloga?”
Mais uma vez fui pega de surpresa. Como aquele menino, de sorriso metálico e lentes azuis, que nunca havia me visto, me questionou sobre o que desejo estudar? Nunca acharam que eu levava jeito pra isso... Só ele, só ele e meu antigo amor...
Puxei um livro que se escondia de mim, soterrado por outros. Ah não! O destino estava zombando de mim!
Meu livro preferido, meu livro preferido... Meu e do meu antigo amor. Ele se assustaria com tamanho acaso e pensei em contar o ocorrido a ele, mas me lembrei de que não nos falamos mais...
“Esse livro é maravilhoso!” – disse juntando minhas forças abaladas e engolindo a dor.
A ferida, recém-fechada, ainda sangrava se tocada com descuido...
“Pode ficar com ele, e pega qual quiser! São todos livros velhos mesmo.”
Retirei ao todo quatro livros de sua sacola.
“Leia esse, parecem ser bons!” – mesmo sem conhecer nenhum deles, queria que lesse, queria que aquele garoto se interessasse pelo universo mágico, escondido em cada livro.
Contei-lhe a história de um, o único que conhecia, e ele me disse que daria uma olhada naquele.
Pediu-me uns trocados, mas estava dura e pedi desculpas por não ter nada.
Agradeceu-me sem motivo algum, recolheu suas sacolas, atravessou a rua e sumiu.
Permaneci sentada, tentando entender nosso encontro e sentindo que nunca mais veria o garoto das sacolas. O único pensamento que me ocorreu é que apesar de tanta dor a vida ainda sorri pra gente...

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