quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vidas

Vou à lanchonete pra escrever sobre pessoas. Ando só e preciso criar “vidas alheias” observando cada um no seu cotidiano.
Sem saber que escrevo sobre elas, ficam curiosas, e me olham tentando imaginar que histórias pintam a folha.
O anel, no dedo da atendente, foi ganho ou comprado durante um impulso consumista? Se ele existe, o que ela deseja para o amanhã?
Rostos fechados, corpos engravatados, sapatos apertados.
A chave do carro se mexe incontrolavelmente na mão do “homem social”. Ele... Ele pensa em seu sofá, se imagina nu, tomando uma cerveja e assistindo futebol.
A chegada, inesperada, de uma amiga interrompe meus devaneios.
Retomo-os sentada na cadeira, esperando minha vez de subir ao palco.
Perco-me nele.
Da última vez ele estava ali, sentado, me assistindo e me fitando com seus olhos castanhos... O teatro ganha seu cheiro e a bolsa em meu colo se transforma no seu cabelo... Quanta ilusão...
Será que a mulher grávida, que vi na sacada de uma casa, contra a luz, está feliz? Que nome escolheu para o bebê? Será menino ou menina?
Tive apenas um vislumbre desse ser duplo, mas fechando os olhos posso vê-la acariciar a barriga, cantar canções de ninar e imaginar toda a vida do seu fruto.
Morte e nascimento se encontram na flor.
Morte da criança.
Nascimento do desejo.

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